O agronegócio brasileiro, um dos principais motores da economia nacional, enfrenta uma série de desafios que podem limitar sua capacidade de crescimento e competitividade. De acordo com pesquisadores e economistas, os desafios indicados exigem planejamento de longo prazo e investimentos continuados que ultrapassam o horizonte de um único mandato presencial.
Entre os principais entraves estão o acesso ao crédito e ao seguro rural, a dependência de insumos importados, as deficiências de infraestrutura, a necessidade de melhorar a comunicação sobre o setor e as dificuldades para ampliar e proteger mercados no exterior.
A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), por exemplo, defende cinco políticas públicas para enfrentar esses problemas: financiamento e seguro rural, fortalecimento das cadeias estratégicas, infraestrutura, comunicação e valorização da agroindústria e inserção internacional.
Especialistas, porém, avaliam que os problemas têm dimensões diferentes e não podem ser resolvidos apenas com medidas pontuais. A avaliação é de que são necessárias políticas de Estado, planejamento de longo prazo e participação do setor privado. Alguns dos gargalos já são alvo de iniciativas governamentais, mas ainda existem dificuldades de execução e escala.
Crédito, fertilizantes e exportações: o que Lula e Flávio Bolsonaro propõem para o agronegócio
Crédito rural, endividamento, fertilizantes, armazenagem, tecnologia e abertura de mercados estão entre os principais temas relacionados ao agronegócio nos programas de governo de Lula e Flávio Bolsonaro. As propostas foram apresentadas pelas candidaturas à Justiça Eleitoral e estão disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por meio do sistema DivulgaCandContas.
As propostas dos candidatos aparecem em um momento em que o setor enfrenta desafios que vão do custo do financiamento e dos eventos climáticos extremos à dependência de insumos importados e aos gargalos de infraestrutura.
Seguro rural aparece nos dois programas
Os dois candidatos apresentam propostas para ampliar a proteção dos produtores contra perdas.
Lula propõe fortalecer o seguro rural e prevê diálogo com o setor para criar um instrumento capaz de mitigar perdas sistêmicas provocadas por quebras severas de safra.
Flávio Bolsonaro também defende a ampliação do Seguro Rural, vinculando a medida às propostas de securitização e reorganização das dívidas.
A preocupação está relacionada também ao baixo nível de cobertura atual. Segundo o pesquisador da FGV, apenas 3% da produção agropecuária brasileira está coberta por seguro.
A legislação aprovada em 2026 criou um novo marco para o seguro rural e regulamentou o Fundo de Catástrofe, além de tornar obrigatórias as despesas com a subvenção ao prêmio do seguro.
Fertilizantes: produção nacional é prioridade
A dependência de fertilizantes importados também aparece nos dois programas. Lula propõe continuar acelerando a produção nacional de fertilizantes. O programa também prevê ampliar a produção de bioinsumos como estratégia para reduzir a dependência de fertilizantes químicos importados.
Flávio Bolsonaro propõe incentivar a produção nacional a partir das reservas minerais brasileiras, incluindo potássio e fosfato. O documento também relaciona o aproveitamento do gás natural à fabricação de fertilizantes.
O tema é estratégico para o Brasil: cerca de 80% dos adubos químicos consumidos no país são importados, segundo as informações reunidas no material.
O país já possui um Plano Nacional de Fertilizantes, mas os resultados dependem de investimentos e são considerados de longo prazo. No curto prazo, especialistas defendem também a diversificação dos fornecedores internacionais.
Armazenagem e infraestrutura
A capacidade de armazenagem é outro ponto destacado no programa de Flávio Bolsonaro. A proposta é ampliar a estrutura nacional para melhorar as condições de comercialização para o produtor e garantir o abastecimento durante todo o ano.
O tema também é relacionado ao escoamento da produção e à oferta de alimentos durante a entressafra.
A infraestrutura é apontada pela Abag e por especialistas como um dos grandes gargalos do agronegócio. Baixa capacidade de armazenamento e condições precárias de parte das estradas aumentam os custos e reduzem as margens dos produtores.
Além das rodovias, especialistas defendem maior integração entre ferrovias e hidrovias e investimentos em conectividade no campo. Mais de 1,3 milhão de domicílios rurais não tinham acesso à internet em 2024, segundo dados do IBGE citados no material.
Tributação
Na área tributária, Flávio Bolsonaro propõe revisar e redimensionar a reforma tributária e medidas que, segundo seu programa, elevaram a carga tributária.
Entre as propostas estão redução da carga sobre produção e consumo, diminuição do IVA, garantia de não cumulatividade, unificação da legislação, desoneração de exportações e investimentos e redução de exceções.
No programa de Lula, a reforma tributária aprovada durante o atual mandato aparece principalmente como referência às medidas já adotadas. Para o próximo período, o documento prevê, durante a regulamentação da reforma, o uso do Imposto Seletivo para desestimular produtos considerados prejudiciais à saúde.
Comércio exterior
A abertura de mercados é outra frente comum aos dois programas, embora com estratégias diferentes.
Lula propõe continuar ampliando os mercados para produtos agrícolas e pecuários brasileiros. Entre as medidas estão o fortalecimento da diplomacia comercial, a promoção da imagem do agronegócio brasileiro, a ampliação da atuação dos adidos agrícolas e a realização de missões comerciais.
Flávio Bolsonaro propõe buscar soluções diplomáticas para medidas que o programa classifica como sanções impostas por Estados Unidos, China e países europeus a produtos brasileiros. O documento prevê negociações com China, União Europeia, Estados Unidos e mercados asiáticos, além de maior integração do Brasil às cadeias globais de valor.
A diversificação é considerada importante diante da concentração das exportações brasileiras em poucos mercados e do aumento das barreiras comerciais. Especialistas defendem maior presença do Brasil nas negociações internacionais e uma atuação conjunta entre governo e iniciativa privada.
Tecnologia e conectividade
A tecnologia também ocupa espaço nos dois programas. Lula propõe fortalecer a Embrapa e ampliar os investimentos em pesquisa agropecuária, incluindo áreas como biotecnologia, edição genética e desenvolvimento de cultivares resistentes a pragas e à seca.
O programa também prevê ampliar a conectividade rural e inclui o agronegócio entre os setores prioritários para a aplicação de inteligência artificial. A expansão do 5G em áreas rurais, especialmente no Norte, Nordeste e periferias, também é citada.
Flávio Bolsonaro inclui o agronegócio entre os setores contemplados por sua estratégia de inteligência artificial e propõe ampliar a conectividade em áreas rurais com baixa cobertura.
Um setor entre crescimento e gargalos
As propostas dos dois candidatos mostram que os principais desafios do agronegócio estão concentrados em temas que vão além da produção dentro da propriedade. Crédito, seguro, fertilizantes, infraestrutura, tributação, tecnologia e acesso aos mercados internacionais são fatores que influenciam diretamente a competitividade do setor.
A avaliação de especialistas é que parte desses problemas exige políticas de longo prazo e participação do setor privado. No caso da infraestrutura, por exemplo, o crescimento da produção ocorre em ritmo superior à expansão da capacidade logística brasileira.
Para o agronegócio, o próximo ciclo de governo terá o desafio de transformar propostas em políticas capazes de reduzir custos, aumentar a segurança dos produtores e manter o Brasil competitivo em um mercado internacional cada vez mais sujeito a mudanças climáticas, conflitos e barreiras comerciais.










