A alta do dólar após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começa a provocar preocupação entre economistas e pode pressionar a inflação brasileira nos próximos meses. O cenário ocorre em um momento em que os preços dos alimentos já sofrem influência de problemas climáticos, incluindo os efeitos iniciais do El Niño.
Na sexta-feira (30), a moeda americana fechou cotada a R$ 5,447, maior valor registrado neste ano. Na semana posterior às eleições, a valorização acumulada chegou a 9,2%.
Segundo as avaliações do mercado financeiro, a reação está relacionada ao receio de que o governo não adote medidas suficientes para equilibrar as contas públicas. Caso o dólar permaneça em patamar elevado, os efeitos poderão atingir diferentes setores da economia e chegar ao consumidor final.
Dólar mais alto pode encarecer produtos
A cotação da moeda americana influencia os preços de commodities negociadas internacionalmente, como produtos agrícolas e minerais. Por isso, a valorização do dólar pode elevar custos de produção, transporte e comercialização no mercado interno.
Entre os setores mais sensíveis estão:
- Combustíveis: os preços podem sofrer influência dos custos internacionais e da variação cambial.
- Alimentos: produtos agrícolas e insumos utilizados na produção podem ficar mais caros.
- Bens duráveis: eletrodomésticos e veículos também podem sentir os efeitos da alta de componentes e matérias-primas importados.
Esse movimento pode provocar um efeito em cadeia, desde a produção até o preço final pago pelos consumidores.
Alimentos já pressionam a inflação
Antes mesmo do resultado eleitoral, os preços dos alimentos já apresentavam pressão sobre a inflação. A redução da oferta, associada a problemas climáticos, como as fortes chuvas registradas no Sul e no Sudeste, contribuiu para a elevação dos preços.
Parte desse cenário também é relacionada aos efeitos iniciais do El Niño, fenômeno que altera temperaturas e a distribuição das chuvas, trazendo desafios para a produção agropecuária.
Com a combinação de alimentos mais caros e possível repasse da alta do dólar, economistas começam a revisar as projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação no país.
Meta de inflação é de 3%
O Banco Central trabalha com uma meta de inflação de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Isso significa que o índice pode variar entre 1,5% e 4,5% sem ultrapassar os limites estabelecidos.
A preocupação, porém, não se restringe a 2026. Economistas também apontam riscos para 2027, caso a pressão cambial e os custos dos alimentos permaneçam elevados.
O comportamento do dólar nos próximos meses dependerá, entre outros fatores, das sinalizações do presidente Lula sobre a política fiscal e da composição do novo governo. Existe a possibilidade de a moeda se acomodar após a reação inicial do mercado, mas as perspectivas ainda dependem das medidas econômicas que serão adotadas.
Medidas econômicas também entram no radar
Além do câmbio e dos efeitos climáticos, medidas de estímulo à economia implementadas pelo governo às vésperas das eleições também são apontadas como possíveis fatores de pressão sobre o IPCA.
Entre os exemplos está o reajuste do Bolsa Família. O anúncio do aumento ocorreu 17 dias antes do primeiro turno, e os novos valores começaram a ser pagos na semana anterior ao segundo turno.
Na avaliação de economistas, medidas que ampliam o poder de compra podem estimular o consumo e pressionar os preços quando a oferta de produtos e serviços não acompanha o aumento da demanda.
O comportamento da inflação dependerá, portanto, da combinação entre câmbio, condições climáticas, oferta de alimentos, demanda interna e decisões da política econômica.






