Uma falha gravíssima no protocolo de identificação e liberação de corpos do Instituto Médico Legal (IML) de Florianópolis resultou em uma sucessão de erros que culminou na troca de três corpos. O Ministério Público de Santa Catarina informou, nesta sexta-feira (8), que vai instaurar procedimento para apurar o caso.
A confusão teve início no dia 9 de abril, quando três corpos foram recolhidos e transportados na mesma viatura para a Polícia Científica: Juliano Henrique Guadagnin (24 anos), vítima de acidente de moto, e outros dois homens, vítimas de homicídio.
A liberação para as funerárias ocorreu no dia seguinte, dia 10, mas a identificação falhou drasticamente: O corpo de Denner, vítima de homicídio, foi entregue para a família de Juliano, morto em acidente de moto. Já o corpo de Patrick, também assassinado, foi entregue para família de Denner.
- Patrick Nunes Ferreira foi entregue à família errada e sepultado no Cemitério do Itacorubi no lugar de Denner Dario Colodina.
- Denner Dario Colodina foi levado ao Cemitério do Rio Vermelho e enterrado no jazigo destinado a Juliano Henrique Guadagnin da Silva.
- Juliano Henrique Guadagnin da Silva, enquanto isso, permaneceu retido no IML, sem que sua família soubesse que o corpo velado por eles não era o do jovem.
Reconhecimento impedido por “caixão lacrado”
As famílias relataram que houve resistência ou impedimento para o reconhecimento visual prévio dos corpos. No caso de Juliano, a justificativa dada foi de que o corpo estaria desfigurado, impondo o caixão lacrado.
O desabafo de Mônica Raquel Guadagnin, mãe de Juliano, resume a dor da negligência: “Eu velei uma pessoa achando que fosse meu filho, eu carreguei o caixão de uma outra pessoa achando que era meu filho”.
Patrick e Denner foram sepultados no mesmo dia e em caixões fechados, sem que as famílias tivessem qualquer contato com os corpos.
“A dor já existia pela perda precoce. Aí você passa por duas vezes isso… hoje é dor com sentimento de indignação, de revolta, hoje é uma mistura”, comentou a mãe de Juliano.
O que diz o relatório do IML?
A NSC TV teve acesso ao relatório de plantão do IML do dia em que os corpos foram liberados. No documento, os plantonistas responsabilizam o agente funerário, profissional da empresa privada responsável por organizar todo o processo fúnebre.
Segundo o relatório, “apesar de demonstrada a exata localização dos corpos liberados para remoção, o agente funerário efetuou a remoção dos corpos de Denner (corretamente) e Patrick (equivocadamente, julgando se tratar de Juliano)”, e que isso teria acontecido enquanto a servidora realizava o armazenamento dos cartões FTA – usado para coleta de material genético dos corpos – e higienização da sala de necrópsia.
A agente funerária Aline Thaise Nunes Mikna, que trabalha na funerária que fez a retirada dos dois corpos, diz que os documentos estavam corretos, mas com corpos trocados.
“Eu trabalho há 13 anos no setor funerário e algo desse tipo eu nunca tinha visto. Foi extremamente desgastante e você ver o que as famílias estão passando, você como ser humano se colocar no lugar, tem empatia”, descreve.
Ainda segundo a agente funerária, depois que a troca foi percebida, servidores públicos teriam feito a proposta de manter os corpos trocados sem avisar as famílias.
“Quando eu fui no IGP (antiga Polícia Científica) juntamente com o gerente da outra funerária, foi sugerida a questão de continuar da maneira que estava, esconder o erro. Que lacrasse a urna, entregasse para o velório normalmente para a família e, depois, fizesse o sepultamento. Assim, nenhum dos três casos seriam descobertos. A gente não fez isso”, completou.
Questionada, a Polícia Científica de Santa Catarina negou que essa proposta tenha sido feita.
Em nota, a Polícia Científica de Santa Catarina reconheceu “que ocorreu um erro operacional na unidade de Florianópolis durante a liberação dos corpos” e lamentou o ocorrido.
Investigação e providências
O MPSC investiga indícios de problemas estruturais no IML, como elevado volume de trabalho e falta de servidores suficientes no plantão. Como medidas imediatas, a Promotoria de Justiça determinou:
- Ofício à funerária: Para esclarecer como o erro foi percebido e detalhar o processo de liberação.
- Ofício à Polícia Científica: Exigindo explicações sobre os protocolos de custódia e as rotinas de identificação adotadas na data dos fatos.
- Investigação Administrativa: Requisição de informações sobre a atuação da Corregedoria e o estágio de apurações internas.
Após a descoberta do erro, os corpos que já haviam sido enterrados precisaram passar por um traumático processo de exumação.
Somente no dia 13 de abril, após retornarem ao IML para a devida identificação, as três famílias puderam finalmente realizar os sepultamentos corretos.








