Neste domingo (1º), praças e avenidas de diversas capitais e cidades do interior foram tomadas por milhares de pessoas e por cartazes pedindo Justiça pelo Orelha.

O cão, vítima de uma crueldade extrema que chocou o país nos últimos dias, tornou-se o símbolo de uma luta por leis mais rigorosas contra maus-tratos. Celebridades e políticos reagem à morte do animal. No entanto, a magnitude do movimento acende um debate desconfortável: o que faz o Brasil parar por um cachorro mas seguir em silêncio diante de estatísticas alarmantes de violência infantil, por exemplo?
A pureza como gatilho de empatia
Especialistas em psicologia social explicam que a comoção por animais como o Orelha reside na percepção de total indefesa e pureza. O animal é visto como um ser que não possui malícia, que não “merece” o mal em nenhuma circunstância e que é totalmente dependente da proteção humana. Esse sentimento de injustiça contra a inocência absoluta gera uma indignação imediata e universal.
O “Cansaço” da tragédia humana
Infelizmente, o Brasil convive diariamente com crimes, com um aumento perceptivo contra crianças e mulheres. A exposição constante a essas notícias gera um fenômeno chamado de fadiga por compaixão. O público, saturado de ver violência humana, muitas vezes se torna apático ou sente que o sistema judiciário já “falhou” nesses casos de forma irreversível.
No caso dos animais, há uma sensação (ainda que ilusória) de que a lei está sendo construída agora e que a pressão popular pode realmente mudar o desfecho.
A mobilização digital
O caso Orelha também se beneficiou do algoritmo das redes sociais. Imagens de animais feridos ou em situações de resgate possuem um potencial de compartilhamento gigantesco, atravessando bolhas ideológicas. Em contrapartida, casos envolvendo crianças exigem sigilo de justiça e proteção da imagem da vítima, o que limita o “rosto” da tragédia e, consequentemente, o alcance da mobilização visual.
Equilíbrio necessário
Justiça pelo Orelha é legítima e necessária. Punir com rigor quem maltrata animais é um sinal de civilidade, até porque estudos indicam que a crueldade contra animais é, muitas vezes, o primeiro passo de psicopatias que evoluem para crimes contra humanos.
Por outro lado, o movimento deste domingo deixa uma lição: nossa indignação não deve ser seletiva. Se somos capazes de parar o país por um cão, deveríamos ser capazes de marchar com o mesmo fervor por cada criança vítima de abuso e abandono. A dor não deveria ter espécie preferencial na hora da revolta.
Manifestações pelo país
A Beira-Mar Norte, uma das principais vias do Centro de Florianópolis, foi tomada por manifestantes neste domingo (1°) em um ato exigindo justiça nas investigações das agressões que levaram à morte do cão Orelha. Teve trio elétrico, faixas, cartazes e gritos de ordem. O grupo também percorreu a via levando animais de estimação. Outras cidades de Santa Catarina e do país registraram atos, como Balneário Camboriú, Blumenau, Criciúma, e São José.
Capitais do país também realizaram atos cobrando celeridade nas apurações do caso.
Na capital paulista, o ato mais expressivo ocorreu na Avenida Paulista, tradicional palco de manifestações. Centenas de pessoas se reuniram em frente ao MASP, formando uma grande concentração.
Em Porto Alegre, o grupo se reuniu no Parque da Redenção. O ato foi convocado por uma ONG em defesa dos animais. Os participantes levaram cartazes pedindo justiça no caso, e os próprios pets marcaram presença. No estado gaúcho, também houve ato em Caxias do Sul, na Serra.
A Feira Hippie, em Belo Horizonte, foi tomada por manifestantes que pediram justiça nas investigações que apuram as agressões que levaram à morte do cão Orelha. A passeata pediu, ainda, penas mais duras para o crime de maus-tratos.
O grupo na capital do Espírito Santo se concentrou durante a manhã na orla da Praia de Camburi. Estiveram presentes representantes de organizações sociais e defensores da causa animal. Organizadores estimaram a participação de aproximadamente 300 pessoas.
Em Manaus, rotetores de animais, tutores e ativistas se reuniram no Anfiteatro da Ponta Negra para pedir justiça pela morte do cachorro Orelha. Vestindo camisas pretas, os manifestantes também denunciaram a frequência de casos de maus-tratos contra animais e cobraram responsabilização dos envolvidos.
O que aconteceu com o cão Orelha em Florianópolis?
Orelha morreu após ser agredido em 4 de janeiro. Ele era um cão comunitário que recebia cuidados de vários moradores na Praia Brava, bairro turístico e nobre de Florianópolis. O animal foi encontrado agonizando por pessoas que estavam no local.
A Polícia Civil inicialmente investigava um grupo de quatro adolescentes suspeitos de ter agredido o cachorro. Na sexta-feira (30), um deles foi descartado da autoria após o inquérito concluir que ele não tinha envolvimento com os maus-tratos ao animal, que conforme o laudo pericial foi atingido na cabeça com um objeto contundente.
➡️ Os nomes, idades e localização dos suspeitos de atacar Orelha não foram divulgados pela investigação, tendo em vista que o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê sigilo absoluto nos procedimentos envolvendo pessoas abaixo de 18 anos.









