O El Niño pode atingir a categoria de intensidade máxima e virar um ‘Super El Niño’ ainda em setembro, mas a previsão sobre os impactos do fenômeno em Santa Catarina ainda é incerta.
A avaliação é do gerente de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil de Santa Catarina, Frederico de Moraes Rudorff, que acompanha a evolução das condições oceânicas e atmosféricas e ressalta que a intensidade do fenômeno, por si só, não permite prever a ocorrência de eventos extremos.
Atualmente, a temperatura das águas do Pacífico Equatorial apresenta uma anomalia de aproximadamente 1,8°C, o que coloca o fenômeno na categoria de El Niño forte. Segundo os critérios utilizados pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o fenômeno é considerado muito forte quando a anomalia ultrapassa 2°C.
Embora os dados atuais indiquem a possibilidade de o fenômeno alcançar a categoria de El Niño muito forte nas próximas semanas, isso não significa que Santa Catarina necessariamente enfrentará chuvas excepcionais, enchentes ou outros desastres de grande proporção.
A evolução do cenário dependerá também da atuação de outros padrões atmosféricos e oceânicos, que ainda precisam ser acompanhados.
Intensidade do El Niño não determina, sozinha, a ocorrência de desastres
Rudorff destaca que não existe uma relação direta entre a intensidade do El Niño e a dimensão dos eventos extremos registrados no estado.
“As enchentes que atingiram o Vale do Itajaí em 2023 e o Rio Grande do Sul em 2024 ocorreram sob influência de um El Niño moderado e foram mais intensas do que as registradas em 2015, quando o fenômeno atingiu uma das maiores intensidades já registradas”, explica.
O histórico climático também mostra que episódios severos podem ocorrer durante períodos de La Niña. Entre os exemplos citados pelo especialista estão os desastres registrados em 2008, as enchentes no Alto Vale do Itajaí em 2011 e o ciclone-bomba de 2020.
Por isso, não é possível afirmar neste momento que um eventual El Niño muito forte resultará em uma repetição dos grandes desastres registrados em outros anos.
Outros fatores ainda precisam ser monitorados
De acordo com Rudorff, a ocorrência de chuvas intensas e grandes desastres depende da combinação de diferentes fatores atmosféricos e oceânicos. Entre eles está a oscilação Madden-Julian, um padrão climático que se desloca pelos trópicos em ciclos de aproximadamente 30 a 60 dias e alterna períodos mais úmidos e secos.
A interação entre esse fenômeno, o jato subtropical e o transporte de umidade pode contribuir para a formação de episódios de chuva intensa em Santa Catarina.
“Um El Niño muito forte tende, sim, a aumentar a frequência de chuvas, mas a ocorrência de grandes eventos depende da combinação com outros fatores climáticos”, afirma o gerente.
Dessa forma, a Defesa Civil mantém o monitoramento permanente das condições meteorológicas e oceânicas. A primavera de 2026 e o outono de 2027 são apontados como períodos que merecem atenção especial, mas ainda não é possível antecipar com precisão a ocorrência, a localização ou a intensidade de eventuais eventos extremos.
Oceanos mais quentes aumentam disponibilidade de umidade
Outro fator que chama a atenção dos meteorologistas é o aumento da temperatura média dos oceanos. Segundo Rudorff, águas mais quentes favorecem uma maior disponibilidade de umidade na atmosfera, que pode atuar como combustível para tempestades e episódios de chuva intensa.
“Com a maior disponibilização de umidade em todos os oceanos, especialmente no Oceano Atlântico, que está mais próximo de Santa Catarina, mais intensos os fenômenos tendem a ser”, explica.
O aquecimento global também levou a NOAA a utilizar um índice relativo, chamado Relative Oceanic Niño Index (RONI), para avaliar a intensidade do El Niño. A metodologia considera o aquecimento geral dos oceanos e permite uma comparação mais adequada entre eventos ocorridos em diferentes períodos.
Defesa Civil orienta população a se preparar
Apesar das incertezas sobre os impactos do fenômeno, a Defesa Civil reforça a importância da preparação da população para possíveis episódios de tempo severo.
A orientação é que os moradores conheçam as características da região onde vivem, verifiquem se estão em áreas sujeitas a inundações e saibam qual é o abrigo mais próximo.
A população também pode receber alertas diretamente no celular. Para se cadastrar, basta enviar um SMS com o CEP para o número 40199.
Durante temporais acompanhados de ventos fortes ou granizo, a recomendação é procurar um local seguro e manter distância de árvores e postes. Em residências que não sejam de alvenaria, o banheiro pode oferecer uma estrutura mais protegida.
A Defesa Civil alerta ainda para que ninguém tente atravessar ruas alagadas, pontes submersas ou locais com correnteza. A água pode esconder obstáculos e apresentar força suficiente para arrastar pessoas e veículos.
Em situações que indiquem risco de deslizamento, como rachaduras em paredes ou muros, postes inclinados ou surgimento de água barrenta em encostas, a orientação é deixar imediatamente o imóvel e buscar ajuda.
A Defesa Civil pode ser acionada pelo 199 e o Corpo de Bombeiros pelo 193.
Como o El Niño é monitorado
O fenômeno é acompanhado em quatro regiões do Pacífico Equatorial: Niño 1+2, Niño 3, Niño 3.4 e Niño 4. A região Niño 3.4 é uma das principais referências utilizadas para determinar a intensidade do El Niño.
A formação do fenômeno é caracterizada quando a temperatura da superfície do mar nessa área permanece pelo menos 0,5°C acima da média climatológica durante vários meses consecutivos.
No cenário atual, a anomalia de aproximadamente 1,8°C já coloca o fenômeno na categoria forte. Caso ultrapasse os 2°C e mantenha esse patamar pelo período necessário, poderá ser classificado como um El Niño muito forte. Essa possibilidade, porém, não deve ser interpretada como uma previsão de grandes desastres em Santa Catarina.
O acompanhamento dos demais indicadores climáticos será fundamental para determinar como o fenômeno poderá influenciar o estado nos próximos meses. Por enquanto, o cenário exige atenção e preparação, mas não permite afirmar que Santa Catarina terá uma temporada de eventos extremos.






























