Dois médicos foram indiciados pela Polícia Civil pelo crime de homicídio culposo — quando não há a intenção de matar — no caso da jovem Maria Luiza Bogo Lopes, de 18 anos, que morreu após procurar atendimento médico por quatro vezes consecutivas em um hospital de Indaial, no Vale do Itajaí.
A grávida estava no sétimo mês de gestação e o bebê também não resistiu. A conclusão do inquérito, divulgada nesta quarta-feira (17), apontou negligência e omissão de socorro profissional em um quadro de gravidez de alto risco.
A decisão das autoridades policiais foi respaldada por uma ampla investigação técnica que envolveu a análise minuciosa de prontuários médicos, laudos da Polícia Científica e o depoimento de 20 pessoas, entre familiares da vítima, funcionários da saúde e os próprios médicos indiciados. O entendimento da Polícia Civil é de que os profissionais tinham o dever legal e técnico de agir para evitar o óbito da paciente.
Em nota oficial, a direção do Hospital Beatriz Ramos — unidade onde a jovem buscou socorro durante quatro dias — informou que solicitará uma cópia integral do inquérito policial para avaliar a adoção de eventuais medidas complementares, ressaltando que providências administrativas internas já haviam sido tomadas.
A cronologia da omissão e falhas nos diagnósticos
Maria Luiza havia sido diagnosticada em março com diabetes gestacional durante o pré-natal realizado no posto de saúde do bairro Tapajós, o que enquadrava sua gestação na categoria de risco. A partir de 30 de março, a jovem começou a manifestar dores severas no corpo, cabeça, olhos, costas e episódios de febre alta, iniciando uma peregrinação em busca de socorro:
- 1º Dia (30 de março): Maria passou por exames rápidos no Hospital Beatriz Ramos. Segundo os familiares, os médicos alegaram não ter detectado qualquer alteração e a liberaram para voltar para casa.
- 2º Dia (31 de março): Em nova consulta na unidade, exames laboratoriais apontaram uma redução no número de plaquetas no sangue da gestante. Embora a Polícia Científica tenha observado que o número ainda estava em patamar aceitável, o histórico de diabetes gestacional exigia a internação imediata da paciente para monitoramento, o que foi negligenciado. Nesta data, os médicos cogitaram um diagnóstico de dengue, mas nenhum teste específico foi solicitado.
- 3º Dia (1º de abril): Com o agravamento das dores e um quadro de cansaço extremo, a jovem retornou ao hospital nos períodos da manhã e da tarde. Nenhum tipo de exame de sangue ou imagem foi realizado, e ela foi novamente mandada para casa. A perícia técnica classificou este episódio como uma grave falha assistencial.
- 4º Dia (2 de abril): Diante da piora drástica, a família recorreu inicialmente ao posto de saúde do bairro, onde Maria recebeu soro e foi transferida de forma urgente de volta ao Hospital Beatriz Ramos. Em menos de uma hora de relógio, os médicos informaram os familiares de que a jovem sofria de uma infecção generalizada gravíssima.
Devido à complexidade do caso e à ausência de leitos adequados, Maria Luiza precisou ser transferida às pressas por uma ambulância de suporte avançado do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) até o Hospital Santo Antônio, no município vizinho de Blumenau.
Contudo, as complicações decorrentes do atraso no diagnóstico correto provocaram a falência múltipla de órgãos e o aborto do feto, culminando na morte de mãe e filho. O caso agora segue para o Ministério Público de Santa Catarina para o oferecimento da denúncia à Justiça.























