O cenário político e o setor de entretenimento de Santa Catarina foram sacudidos na manhã desta terça-feira (7) pela deflagração da Operação “Pão e Circo”, que trouxe à tona a suspeita de que shows contratados por prefeituras teriam sido organizados através de um esquema fraudulento.
Na prática, a investigação do Gaeco revelou que empresários combinariam previamente com agentes públicos a contração específica de shows. Depois, em um edital que seria fraudado, ocorreria a concretização do esquema. O município de Canoinhas foi um dos pontos da Operação.
Agentes do Gaeco estiveram na sede do Executivo municipal de Canoinhas nas primeiras horas do dia para recolher documentos relacionados a contratos de eventos. Em nota (leia abaixo) a Prefeitura de Canoinhas destaca que o município não contratou shows com as empresas sob investigação nos últimos cinco anos, e que a prefeita Zenilda Lemos e a ex-prefeita Juliana Maciel não são citadas na operação.
A ofensiva interagências é liderada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO), do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), em conjunto com a Polícia Civil (PCSC) — por meio da Divisão de Investigação Criminal (DIC) de Canoinhas.
Como o caso envolve alvos com foro por prerrogativa de função (foro privilegiado), todas as ordens e mandados judiciais foram autorizados e expedidos pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC).
O mapa das buscas
As diligências do Gaeco e da Polícia Civil miraram residências particulares e repartições públicas nas seguintes cidades:
- Santa Catarina: Abdon Batista, Apiúna, Aurora, Bombinhas, Brusque, Canoinhas, Governador Celso Ramos, Indaial, Itaiópolis, Itapema, Laurentino, Mafra, Palhoça, Porto Belo, Pouso Redondo, Santa Terezinha, São Bento do Sul e Três Barras.
- Rio Grande do Sul: Porto Alegre.
O Esquema: Cartel, Fraude e Propina no Show Business
De acordo com os elementos colhidos pela investigação, o esquema consistia na existência de um cartel solidamente estruturado por empresários do ramo de shows e grandes eventos. Ao longo de anos, esse grupo criminoso manipulou o mercado de entretenimento catarinense por meio das seguintes práticas de corrupção:
- Fraude em Licitações: Os empresários combinavam e fraudavam certames públicos para eliminar concorrentes legítimos, manipular os preços das contratações e dominar o mercado de shows com artistas de renome nacional de forma exclusiva;
- Corrupção Ativa e Passiva: O cartel contava com a conivência de servidores e agentes públicos, que recorriam ao pagamento e recebimento de propina para direcionar as licitações das prefeituras e viabilizar o negócio ilícito;
- Lavagem de Dinheiro: Os envolvidos utilizavam mecanismos complexos de lavagem de capitais para ocultar a origem e a movimentação dos expressivos valores financeiros obtidos ilegalmente.
Os números da megaoperação e bloqueio de R$ 9 Milhões
Ao todo, a força-tarefa mobilizou dezenas de policiais e promotores para o cumprimento de 50 mandados de busca e apreensão espalhados por 19 municípios (18 em Santa Catarina e um no Rio Grande do Sul), além de um mandado de prisão preventiva.
Por determinação do TJSC, foi efetivado o sequestro e a indisponibilidade de aproximadamente R$ 9 milhões em bens e valores das contas dos investigados, montante que visa garantir a futura reparação e ressarcimento dos cofres públicos (erário).
A Justiça aplicou ainda severas medidas cautelares contra agentes públicos, ex-agentes públicos e empresários, incluindo:
- Afastamento imediato de funções públicas;
- Restrições rigorosas para voltar a contratar com o poder público;
- Proibição total de acesso a repartições municipais;
- Proibição absoluta de contato entre investigados e testemunhas do caso.
Todo o material recolhido (computadores, celulares e documentos) passará por perícia técnica da Polícia Científica de Santa Catarina para robustecer o inquérito, que tramita sob sigilo.

Quem são os alvos: Empresário preso e ex-prefeito na mira
- José Clemir Spinelli (Preso): Dono da Spinelli Produções e influente empresário do setor de shows e eventos, foi o único preso preventivo da operação nesta manhã. Ele foi capturado pelas equipes policiais em Itapema, no Litoral Norte catarinense. Spinelli é apontado como um dos líderes do cartel. Historicamente, ele foi o responsável por organizar todas as edições da Fesmate (Festa Nacional da Erva-mate) realizadas em Canoinhas durante a gestão do ex-prefeito Beto Passos. Por outro lado, ele não executou o evento durante o governo de Juliana Maciel Hoppe.
- Emerson Maas (Alvo de Busca): O ex-prefeito de Mafra (MDB) também figurou na lista de alvos dos mandados da operação nesta terça-feira. Maas renunciou ao cargo de chefe do Executivo mafrense em abril deste ano para pavimentar sua candidatura a uma vaga de deputado estadual na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) nas eleições de 2026.

Posicionamento dos Municípios da Região
Prefeitura de Canoinhas
Em nota oficial, o Município de Canoinhas buscou se distanciar das gestões anteriores e enfatizou que colabora integralmente com o Gaeco, fornecendo toda a documentação solicitada. A prefeitura garantiu que a atual prefeita, Zenilda Lemos, bem como a ex-prefeita Juliana Maciel Hoppe, não são citadas na investigação.
O texto oficial destaca que o município não contratou shows com as empresas sob investigação nos últimos cinco anos, delimitando que os contratos suspeitos em Canoinhas ocorreram entre os anos de 2017 e 2021 (período correspondente à gestão de Beto Passos).
Prefeitura de Três Barras
A Administração Municipal de Três Barras também confirmou ter recebido os agentes do Gaeco na manhã desta terça-feira. Por meio de nota da Assessoria de Comunicação, a prefeitura afirmou ter recebido as equipes “com absoluta tranquilidade” e prestado toda a colaboração necessária, disponibilizando documentos e informações de forma imediata.
O município reforçou seu compromisso com a transparência e com os órgãos de controle, colocando-se à disposição para futuros esclarecimentos necessários ao devido processo legal.

























