Por que a população não apoiou o movimento dos caminhoneiros?

Risco de desabastecimento foi um dos principais motivos que levaram a população a não apoiar a paralisação.

Um dos principais receios da população, em relação a manifestação dos caminhoneiros na última semana, foi que o movimento pudesse acarretar em (mais) alta da inflação e risco de desabastecimento, levando assim à baixa adesão popular.

Uma prévia do que poderia acontecer pode ser constatada em alguns municípios catarinenses, por exemplo, onde a distribuição de combustível nos postos foi afetada, causando uma corrida desenfreada para garantir o tanque cheio, fazendo com que grande parte deles ficasse sem o produto em poucas horas.

No Rio Grande do Sul, a Santa Casa de Misericórdia, em Santana do Livramento, suspendeu cirurgias após manifestações em rodovias impedirem a chegada de insumos cirúrgicos.

PEDIDO PARA FIM DOS BLOQUEIOS

Cogita-se que um dos principais motivos que levaram Jair Bolsonaro a pedir que os caminhoneiros desbloqueassem as rodovias foi a pressão de produtores rurais, uma de suas importantes bases de apoio. É fato que nessas situações [bloqueios de rodovias] o agronegócio é sempre penalizado, pois é o que mais precisa de estradas para escoar a produção.

Os produtores lembraram que em 15 de setembro começa a época de plantio. O atraso na entrega de sementes, fertilizantes e defensivos poderia causar mais um ano de redução de safra.

A diminuição no volume da colheita já foi um problema em 2021, em razão de diversos fenômenos climáticos. Esse fator contribuiu para elevar os preços dos alimentos, gerando maior pressão sobre a inflação.

Uma repetição desse cenário no ano que vem poderia causar ainda mais dificuldades para a reeleição de Bolsonaro.

Em 2018, a paralisação dos caminhoneiros e os bloqueios de rodovias, em 24 estados e no Distrito Federal, causaram a indisponibilidade de alimentos e remédios ao redor do país, escassez e alta de preços.

Na ocasião, os grevistas se manifestaram contra os reajustes frequentes nos preços dos combustíveis, principalmente do óleo diesel, realizados pela estatal Petrobras com frequência diária, pelo fim da cobrança de pedágio por eixo suspenso e pelo fim do PIS/Cofins sobre o diesel. A população apoiou a classe em suas reivindicações.

Desta vez, porém, caminhoneiros reclamaram de terem sido obrigados a aderir à mobilização. Há muitos relatos, principalmente em vídeos compartilhados em grupos de Whatsapp.

“Não vejo futuro nenhum (no movimento) para nós caminhoneiros. Não tem discussão de preço do óleo diesel, do gás de cozinha, redução no preço de alimento”, diz um profissional da estrada.

Ele deixou claro que estava ali porque era obrigado, por receio de sofrer alguma depredação no caminhão, caso se dispusesse a deixar o local. “Por mim teria ido embora, porque não tem uma pauta de reivindicação em prol da população. Não é uma pauta nossa, civil.”

Na avaliação do governo, a atuação integrada das forças de segurança estaduais e da Polícia Rodoviária Federal (PRF), foi fundamental para a desmobilização. A atuação da PRF também garantiu a liberação de muitos caminhoneiros que optaram por não aderir ao movimento e que estavam retidos contra a vontade.

Na manhã de sexta-feira (10), o Centro de Controle e Operações se reuniu para definir os próximos passos. Com o fim dos bloqueios nas rodovias, a atuação agora se dá no sentido de monitorar para evitar novos fechamentos.