Os olhos que formaram uma médica!

No terceiro ano do curso, ela sofreu um AVC que paralisou os movimentos e a fala, mas não a capacidade intelectual.

A paranaense Elaine Luzia dos Santos, de 33 anos, moradora de Cascavel (PR), perdeu todos os movimentos do pescoço para baixo, e a fala, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) em 2014 (veja abaixo).

Porém, isso não a impediu de realizar o maior sonho da vida dela: se formar em medicina. Ela é a primeira pessoa tetraplégica a se formar no curso no Brasil.

Com um olhar, uma piscada, um sutil movimento, Elaine se comunica com professores, colegas da turma, pacientes, familiares e amigos, que aprenderam a traduzir o significado de cada gesto.

Conforme explica a pedagoga Clarice Palavissini, que foi indicada pela universidade para auxiliar a médica durante a graduação, ela se comunica através da soletração, usando o olhar e uma tabela com letras divididas em cinco grupos, para agilizar a formação de palavras.

O AVC

Elaine morava na pequena Diamante D’Oeste, com pouco mais de 5 mil habitantes, e se mudou para Cascavel para cursar medicina. Ela já era graduada em Farmácia.

Até o terceiro ano do curso, tinha uma vida normal. Estudava muito, tinha aula em período integral e nunca faltava, conforme relataram os professores.

Em 2014, aos 26 anos, ela sofreu o AVC. A cuidadora de Elaine, Isabella, relatou sobre como foi o dia do acidente.

Ela estava em casa […] era cerca de uma hora da madrugada. Ela foi no banheiro nausear e caiu, perdeu a força e ficou até as três da tarde aguardando por socorro médico. […] aí uma enfermeira ouviu o sussurro de socorro e bateu na porta” conta ela.

No caso de Elaine, o AVC foi na ponte do tronco encefálico, que fica acima da medula espinhal e que regula a respiração, pressão arterial e frequência cardíaca, interrompendo o fornecimento de sangue para algumas áreas.

De acordo com a equipe médica que atendeu ela, esse tipo de AVC é raro e na maioria dos casos é fatal.

Elaine ficou 30 dias internada em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Ao sair, foi identificada a chamada síndrome do encarceramento, que é quando o paciente fica lúcido, mas perde todos os movimentos corporais e a fala.

Elaine com os pais, Josué e Dalva dos Santos. Foto: UNIOESTE/Divulgação

Enquanto ainda estava na Unidade de Terapia Intensiva – UTI, a estudante recebeu a visita de um colega de turma, que lhe apresentou uma ferramenta chamada “prancha alfabética” que possibilitaria que ela falasse e se expresse, sem utilizar as cordas vocais. 

Exemplo de superação

O retorno às atividades acadêmicas, em setembro de 2015, não foi uma tarefa fácil. Contudo, de acordo com a pedagoga Clarice Palavissini, a estudante foi dedicada do início ao fim da graduação, sendo um exemplo para os colegas. “Dedicada, não gostava de faltar, e se esforçava para estar sempre. Um exemplo para os outros acadêmicos”, destaca ela.

A Unioeste, por meio do Programa de Educação Especial (PEE), acompanhou todo o processo de retorno dela para a Universidade.

Para as dificuldades da vida, Elaine tem uma resposta pronta. Soletrando letra a letra ela descreve o que é a vida.

“Buscar sempre ser o seu melhor”.


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