Norte catarinense: Casal usa economias pelo sonho de salvar a Mata Atlântica

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Em uma escolha de vida pautada pelo altruísmo, o casal catarinense trocou o consumo pelo plantio de um legado: hoje, somam 1.000 hectares protegidos.

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Enquanto a maioria das pessoas planeja férias, compra o carro do ano ou frequenta restaurantes badalados, Germano Woehl Júnior e Elza Nishimura Woehl tinham um foco muito mais perene. Durante duas décadas, cada centavo economizado pelo casal teve um único destino: a compra de terras para evitar que a devastação alcançasse o que restava da Mata Atlântica no Norte de Santa Catarina.

Área de Mata Atlântica contínua protegida pelas RPPNs em Itaiópolis – Foto: Acervo pessoal

A trajetória, que começou como um sonho audacioso em 2004, consolidou-se em 14 RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural) distribuídas entre os municípios de Guaramirim e Itaiópolis. São 1.000 hectares de florestas que misturam matas primárias com áreas em processo de regeneração, servindo como santuários para a biodiversidade.

Reconhecimento e resiliência

O impacto do trabalho do casal foi celebrado recentemente com o 1º Prêmio Miguel Milano de Conservação da Natureza, entregue durante a UCBIO. O prêmio de R$ 100 mil será reinvestido integralmente na manutenção e proteção dessas unidades de conservação, reafirmando o compromisso de quem não hesita ao olhar para trás. “Enquanto o pessoal viajava, a gente comprava um pedacinho de Mata Atlântica”, resume Elza, com a clareza de quem encontrou seu propósito.

O casal Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl são os primeiros ganhadores do prêmio Miguel Milano de Conservação da Natureza. Foto: Marcio Isensee e Sá

A solidez do trabalho passa pelo Instituto Rã-Bugio para a Conservação da Biodiversidade, fundado em 2003. Das 14 áreas protegidas, duas foram adquiridas com auxílio de doações via instituto, enquanto as outras 12 saíram diretamente das economias pessoais do casal.

Educação: a semente da mudança

Quando se conheceram, em 1981, Germano e Elza ainda não eram ambientalistas tampouco poderiam imaginar que contribuiriam para dezenas de artigos científicos sobre anfíbios. 

Na época, ele ainda estava na graduação em Física (nos anos seguintes somaria esse diploma aos de mestrado e doutorado na área), mas já carregava a curiosidade inata que fez com que aos 11 anos decidisse que viraria “pesquisador”. Ela, vinda de uma família de agricultores do norte do Paraná, onde colheu algodão até os 17 anos, tinha testemunhado a destruição das florestas a sua volta. 

A união potencializou nos dois uma relação de carinho e cuidado que já nutriam pela natureza e seus seres. E aí veio “Pili”, nome dado a uma perereca de cerca de três centímetros que apareceu na cozinha e viveu com eles por cerca de um ano, mudando a rotina diária do casal para garantir que ela não saltasse por engano numa panela quente. 

Pili foi o primeiro anfíbio que Germano fotografou. Dando origem, a partir de 1996, ao hobby que viraria a vida do catarinense ao avesso, fazendo-o meio físico, meio herpetólogo e 100% ambientalista.

Elza recebeu seu próprio chamado. Ou melhor, coaxar. Ela conta que quando se mudaram para Guaramirim, perguntaram a um dos vizinhos se havia alguma espécie de anfíbio comum antigamente que eles não viam mais. “Ele sem hesitar respondeu: Sim, a rã-bugio!  Antes a gente ouvia muito o coaxar dela, e faz anos que não ouço mais”, relembra. 

Durante meses Elza ficou com isso na cabeça, até que um dia “eu subi o morro a noite e ouvi um coaxar diferente, bem próximo do som emitido pelo macaco bugio. Pronto, finalmente descobri”. Não à toa, a rã-bugio (Physalaemus olfersii) virou nome do instituto. 

O Instituto Rã-Bugio é, antes de tudo, uma ferramenta pedagógica. A atuação do casal na educação ambiental é histórica:

  • Exposição itinerante: Desde 1998, iniciaram a desmistificação de anfíbios em escolas de Guaramirim.
  • Monitoramento científico: Em Corupá, conseguiram mobilizar a população inteira da cidade no monitoramento dos sapos, que estavam sendo atacados por carrapatos e morrendo. Nas escolas, mobilizaram 350 alunos. As crianças mediam, identificavam e cuidavam dos animais, transformando a sala de aula em campo de pesquisa.
  • Trilhas interpretativas: Cerca de 70 mil estudantes já percorreram as trilhas da RPPN Santuário Rã-Bugio, vivenciando o bioma na prática.

O custo da resistência

Defesa ambiental no Brasil, infelizmente, carrega riscos reais. O casal enfrenta constantes conflitos com infratores e caçadores. Em junho de 2022, a sede da RPPN Santuário Rã-Bugio foi alvo de múltiplos tiros em uma clara tentativa de intimidação. Sete disparos atingiram a sala de jantar, um local onde Germano costumava trabalhar por horas. Apesar das investigações da Polícia Civil, até o momento, nenhum culpado foi preso.

Mesmo sob ameaça, Germano e Elza permanecem inabaláveis. O físico e a educadora ambiental hoje se consolidam como referências globais em conservação. Mais do que terras e CNPJs, eles deixam um exemplo contagiante: o de que o amor pela natureza é a força motriz mais poderosa para mudar o mundo.

*Este conteúdo foi elaborado com base na reportagem original de ((o))eco, que documenta a inspiradora dedicação de Germano e Elza Woehl à preservação da Mata Atlântica catarinense.

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